134 milhões de sementes recuperam encostas devastadas por tragédia em São Sebastião
Em fevereiro de 2023, São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, viveu um dos piores desastres climáticos do Brasil. Em apenas 24 horas, choveu 683 milímetros, o maior volume já registrado nesse intervalo no país, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Inundações e deslizamentos deixaram 64 mortos e milhares de desabrigados. “Já atuávamos naquela área há mais de dez anos e estudos demonstravam que a tragédia iria acontecer”, diz Fernanda Carbonelli, diretora executiva do Instituto Conservação Costeira (ICC). “Entre os mortos estavam 23 crianças. Elas não tiveram chance de sobreviver por omissão de governos — municipal, estadual e federal —, que sabiam do risco.”
Além das perdas humanas, os deslizamentos de terra provocaram um enorme impacto ambiental. Mais de 200 hectares de Mata Atlântica foram devastados e abriram 853 cicatrizes no terreno.
Para recuperar essas áreas, o ICC desenvolveu um projeto pioneiro, o Restaura Litoral. Ao longo dos últimos três anos, 134 milhões de sementes de espécies nativas foram dispersas com ajuda de drones. Com o projeto atualmente em fase final, mais de 80% das encostas já apresentam cobertura florestal.

Com diversos prêmios já recebidos no Brasil e no exterior, o Restaura Litoral pode se tornar modelo para outros municípios e estados. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), há quase 18 mil áreas de risco no país, onde vivem 4,6 milhões de brasileiros.
Julio Pedrassoli, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de mapeamento urbano do MapBiomas, ressalta, entretanto, que o plantio de árvores deve estar associado à recuperação da drenagem, ao controle da erosão e, quando necessário, a intervenções de engenharia e medidas de ordenamento territorial.
Isso é ainda mais importante em tempos de mudanças climáticas, reforça Pedrassoli. “Elas podem alterar o regime de chuvas e aumentar a ocorrência de eventos extremos em algumas regiões”, diz. “No caso das cidades brasileiras, existe ainda uma dimensão social importante porque populações de menor renda frequentemente acabam ocupando terrenos mais suscetíveis a riscos.”
Reportagem de Suzana Camargo, por Mongabay Brasil
